Quem me vê caminhando na rua, de salto alto e delineador, jura que sou tão feminina quanto as outras: ninguém desconfia do meu hemafroditismo cerebral. Adoro massas cinzentas, detesto cor-de-rosa. Penso como um homem, mas sinto como mulher. Não me considero vítima de nada. Sou autoritária, teimosa e um verdadeiro desastre na cozinha. Peça para eu arrumar uma cama e estrague meu dia. Vida doméstica é para os gatos.
Me dê noticia de você, eu gosto um pouco de chorar, a gente quase não se vê, me deu vontade de lembrar. Me leve um pouco com você, eu gosto de qualquer lugar, a gente pode se entender e não saber o que falar. Seria um acontecimento, mas lógico que você some, no dia em que o seu pensamento me chamou; eu chamo o seu apartamento, não mora ninguém com esse nome, que linda a cantiga do vento; já passou. A gente quase não se vê, eu só queria me lembrar, me dê noticia de você, me deu vontade de voltar.
Chico Buarque
"Nasci nas pradarias, num lamento profundo, onde até o céu chorou. Cresci no verde, criei-me no cinza. Meu choro trouxe alegria, trouxe saudade, trouxe dor. Meu choro trouxe ao mundo uma cruz diferente ficada ao chão, uma cruz sem lágrimas, um sorriso de luto e um estômago lotado de pão e de vasos sem hemácias. Nasci leão, mas leão manso se corta os dentes, se corta o rabo, se corta a juba e se corta a coragem. Minhas garras são outras e, para pensar nelas, admito a paz armada. Nasci em agosto, nasci leão sem realeza, e a minha selva é uma febre eterna de tristeza, onde os ramos crescem e a luz que é desmatada, onde as pétalas é que machucam uma carne masoquista. Nasci em agosto, filho das pradarias, nasci quando o céu murmurou, fruto de um capricho rápido das estrelas cadentes de uma poesia decadente. Nasci leão, mas criei-me virgem para o céu azul, criei-me virgem para o amor. E a virgindade eu só perdi nesses penhascos de utopia, onde não há perdição maior do que a pureza de um coração em chamas, intocável. Meu choro, que veio ao mundo despido, apresenta-se ao próprio mundo numa vergonha profunda. Cresci feito criança de circo, malabarizando as frustrações e andando pela corda-bamba com mais de um coração de largura, pois vasto é o meu universo, e pequeno sempre foi o meu passo. Nasci na dependência de metáfora, pois a nicotina eram os sonhos que jamais tive coragem de sonhar. Nasci leão, perdi a juba. Nasci virgem, perdi o encanto. Nasci câncer, nasci já sem cura, desenganado. Nasci peixes e montei meu próprio aquário onde morri afogado, vítima de um pulmão suicida. Nasci sem saber respirar, cresci na esperança de prender o ar, pois o oxigênio foi o que me impediu de caminhar. O conformismo, essa banalidade da existência, onde se pode sofrer e desejar morrer, onde a sufocação pode vir, pode cegar, pode matar centenas de vezes, mas oxigênio é uma coisa encontrada em todo maldito lugar. Eu nasci quando o céu chorou e, hoje, nascido e crescido na poesia, o choro é só chuva e a vida, que me batizou como vivo, sem vivo eu estar, a vida é só uma virgindade esquecida, velha, caquética, que ninguém gosta de perder. Mas a vida é só uma viagem perdida."
"Olhando assim, ninguém diz. Mas há toda uma explicação do porquê eu ser desse jeito. Só eu mesmo, que sempre estive comigo, aguentando as barras, as rupturas, os socos na cara."
Sobre as Almas Cinzentas: Nomes? →
cinzentos:
Quem sou? Não sei e não quero saber. Não sou homem, não sou humano, não sou bicho, não sou mamífero, não sou átomos, não sou partículas, não sou matéria e não seria todos esses “não”. Sabe por quê? Não sinto necessidade de dar nome as coisas. Quando se põe um nome em algo, acho que é como se…
(via cinzentos-deactivated20130508)
"Você pensa que é o fim do mundo, mas não é. Você acha que a sua dor é a pior de todas as dores já existentes, mas está enganado. Fácil é sofrer, passar dias trancado no quarto, chorar até que a última gota do seu corpo se esgote. Difícil é superar. E mais difícil ainda é se convencer de que superou. Fácil é acabar com a vida pra acabar com a dor, difícil mesmo é levantar todos os dias com um buraco no peito e colocar a roupa de existir. Dizer que está bem é fácil, complicado é estar. Escutar aquela música, sentir aquele cheiro e visitar aquele lugar parecem ser coisas que ardem o fundo da alma, porque as lembranças doem como álcool em ferida aberta. Mas a verdade é que não sentir mais nada dói bem mais. O fim de um sentimento é mais triste do que o seu fim propriamente dito. É mais difícil enterrar histórias, momentos e sorrisos à enterrar-se. Enquanto ainda há uma faísca em meio ao fogo apagado, de certa forma também ainda há importância. Sofrer por se importar é natural, estranho é sofrer por não fazer mais diferença alguma. Continuar dentro de uma bolha de solidão e sofrimento é escolha sua, assim como lutar pra sair dela também. Fácil é olhar a vida passando e ficar estático no mesmo lugar, amargurado, desiludido, cabisbaixo. Difícil é assumir que está no fundo do poço e, sim, precisa de ajuda. Difícil é estufar o peito e não se deixar abalar por nada. Fácil é chorar pela cicatriz adquirida, difícil é aceita-la como uma tatuagem interna que faz parte de você."
"Você pensa que é o fim do mundo, mas não é. Você acha que a sua dor é a pior de todas as dores já existentes, mas está enganado. Fácil é sofrer, passar dias trancado no quarto, chorar até que a última gota do seu corpo se esgote. Difícil é superar. E mais difícil ainda é se convencer de que superou. Fácil é acabar com a vida pra acabar com a dor, difícil mesmo é levantar todos os dias com um buraco no peito e colocar a roupa de existir. Dizer que está bem é fácil, complicado é estar. Escutar aquela música, sentir aquele cheiro e visitar aquele lugar parecem ser coisas que ardem o fundo da alma, porque as lembranças doem como álcool em ferida aberta. Mas a verdade é que não sentir mais nada dói bem mais. O fim de um sentimento é mais triste do que o seu fim propriamente dito. É mais difícil enterrar histórias, momentos e sorrisos à enterrar-se. Enquanto ainda há uma faísca em meio ao fogo apagado, de certa forma também ainda há importância. Sofrer por se importar é natural, estranho é sofrer por não fazer mais diferença alguma. Continuar dentro de uma bolha de solidão e sofrimento é escolha sua, assim como lutar pra sair dela também. Fácil é olhar a vida passando e ficar estático no mesmo lugar, amargurado, desiludido, cabisbaixo. Difícil é assumir que está no fundo do poço e, sim, precisa de ajuda. Difícil é estufar o peito e não se deixar abalar por nada. Fácil é chorar pela cicatriz adquirida, difícil é aceita-la como uma tatuagem interna que faz parte de você."
Aliás, já te escrevi inúmeras vezes — mas nunca enviei. Faço isso muitas vezes (ninguém tem tantas cartas não-enviadas na gaveta como eu) —, às vezes por autocrítica exagerada, insegurança, falta de tempo, sei lá.
(Caio Fernando Abreu. Carta a João Silvério Trevisan)
"Mesmo que você não queira ouvir, quero que você saiba que sempre será parte de mim. E não importa o que o futuro traga, você sempre será meu amor verdadeiro, e sei que minha vida é melhor por causa disso."